Segunda-feira, 24 de março de 2008, 08h00
Multimercados de grife registram perdas no ano
Fundos pilotados por ex-integrantes do governo estão entre os que mais perderam dinheiro no mercado
Vinícius Pinheiro - AE
Nem mesmo os gestores de recursos mais experientes têm conseguido escapar do agravamento da crise financeira internacional. Fundos de investimento multimercados pilotados por ex-integrantes do governo estão entre os que mais perderam dinheiro nos mercados este ano.Os multimercados podem aplicar livremente em vários segmentos ao mesmo tempo, como Bolsa, câmbio e juros. Por conta disso, a rentabilidade depende basicamente da capacidade do gestor de traçar o melhor cenário para os investimentos, ao contrário, por exemplo, dos fundos de ações, mais sujeitos à oscilação da Bolsa.
Entre os fundos que mais perderam recursos, em termos financeiros, está o Quest 30, sob gestão da empresa do ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros. Desde o início do ano, o portfólio amarga perdas de R$ 82 milhões, o equivalente a 5,25%, de acordo com dados do site financeiro Fortuna. Os dados estão atualizados até dia 17, ou seja, não consideram as fortes perdas nos mercados na última quarta-feira.
Outro fundo que apresenta queda é o Mauá Multimercado, do ex-diretor do Banco Central Luiz Fernando Figueiredo. No ano, a desvalorização chega a de 2,41%, o que representa uma perda de R$ 34 milhões.
Quest e Mauá são conhecidos no mercado como “butiques de investimento”, empresas que se propõem a realizar um serviço de gestão diferenciada em busca de maiores rentabilidades e que, geralmente, aceitam apenas recursos de clientes de alta renda. Na lista dos fundos com maiores baixas não aparece nenhuma carteira administrada por grandes bancos de varejo.
Resgates
As perdas nos multimercados com a crise assustaram os investidores, que vinham migrando seus recursos para esses produtos em conseqüência da queda da taxa básica de juros (Selic) e dos ganhos menores dos tradicionais fundos DI.
Desde o início do ano, os multimercados sofreram resgates de R$ 10,9 bilhões e, na média, apresentam rentabilidade de 1,60%, conforme os dados do Fortuna. No mesmo período, o Certificado de Depósito Interbancário (CDI), indicador de referência dos investimentos, apresentou valorização bem maior, de 2,15%.
Mesmo os fundos com performance positiva apresentam desempenho aquém do esperado. É o caso do Gávea, do ex-presidente do BC Armínio Fraga. Apesar do ganho de 1,57% no ano, ou R$ 24 milhões, o resultado ficou abaixo do CDI e da média dos multimercados.
Cenário errado
De acordo com Walter Maciel, sócio da Quest Investimentos, houve, de fato, um erro na avaliação do cenário macroeconômico que serve de base para as decisões da empresa. “No final do ano passado, esperávamos que houvesse uma desaceleração forte da economia norte-americana, mas que não levaria aos problemas enfrentados agora pelo setor financeiro”, argumenta.
Maciel, porém, ressalta que o fundo apresentou resultados “consistentes” em períodos maiores. O Quest 30 registrou alta de 30% em 2006 e de e 16,5% no ano passado, desempenho bem acima do CDI em ambos os períodos. “Para conseguir esse retorno, é preciso tomar algum tipo de risco”, resume.
Para o sócio da Quest, as perdas fazem parte do jogo e o mais importante é sair vitorioso na maior parte do tempo. “E isso nós temos conseguido”, assegura. No curtíssimo prazo, ele assume ser difícil reverter o quadro, mas aponta que a empresa continua apostando nos fundamentos da economia brasileira e que o Brasil será pouco atingido pela crise.
Maciel acredita que, para o cliente, o mais importante nesse momento de turbulência nos mercados é ter a certeza de que o gestor está cumprindo o mandato para o qual foi designado, ou seja, se os riscos assumidos estão dentro dos limites estabelecidos pelo fundo.
O sócio-diretor da Mauá Investimentos, Luiz Fernando Figueiredo, avalia que a indústria de fundos brasileira tem se saído bem diante da gravidade da crise. “O que está acontecendo nos EUA não tem precedentes na história moderna”, enfatiza. Ele justifica que a volatilidade e eventuais perdas fazem parte da característica do fundo, uma vez que as posições tomadas têm objetivo de longo prazo. Desde a criação, em 2005, o fundo da Mauá acumula rentabilidade de 69,7%, contra 51,4% CDI no mesmo período.
Publicado em: 24 de março de 2008, 08h00
Alterado em: 24 de março de 2008, 08h00







