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Foto: Arquivo pessoal
Alvaro compra títulos para especular
Quinta-feira, 26 de junho de 2008, 07h00
Alta dos juros dificulta estratégia dos “especuladores” do Tesouro Direto
Investidores compram títulos já pensando em vendê-los antes do vencimento, mas alta da Selic prejudica rendimentos
Mariana Segala - AE
As perspectivas de alta dos juros básicos da economia (Selic) beneficiam boa parte dos que aplicam pelo Tesouro Direto, sistema do governo de negociação de títulos públicos pela internet. Como recomendam os especialistas, os investidores costumam comprar os papéis pensando em carregá-los até a data do vencimento, quando resgatam o principal investido e os juros combinados. Mas para outra parcela dos aplicadores a elevação da Selic destrói uma estratégia. É o caso de quem adquire os títulos já com a intenção de vendê-los antes do tempo – os “especuladores” do Tesouro Direto.
Alejandro Alvaro, de 40 anos, é um deles. Investidor do Tesouro Direto desde o início do ano passado, o diretor cinematográfico costuma levar até o vencimento apenas os títulos de prazo mais curto. Com os longos, a história é outra. “Desde o início, enxerguei os papéis de longo prazo como instrumentos especulativos”, conta. Ele conseguiu fazer bons negócios enquanto a Selic seguiu em trajetória de queda, mas a situação mudou quando a taxa voltou a subir. “Não imaginei que o panorama fosse mudar tão drasticamente para alterar a tendência de queda dos juros.”
No Tesouro Direto, ao vender os títulos antes do vencimento, o investidor abre mão dos juros prometidos na aquisição. O papel é recomprado pelo governo a preço de mercado, ou seja, pelo valor de negociação naquele dia. Chamado de preço unitário, esse valor pode ser maior ou menor que o da aquisição, trazendo lucro ou prejuízo ao investidor.
Os juros básicos são a variável preponderante para fazer o valor de um título oscilar. “Basicamente, importa a variação da Selic”, diz o professor de Finanças Luiz Jurandir Simões de Araújo, da Fundação Instituto de Pesquisas Contábeis, Atuariais e Financeiras (Fipecafi). Nos títulos com pelo menos parte do rendimento prefixada (definida no momento da compra), a relação entre as duas coisas é inversa: quando os juros sobem, o preço cai, e vice-versa. Este é o caso de quatro dos cinco papéis vendidos pelo Tesouro Direto – os mais adequados para “especular”.
E mais: quanto maior o vencimento do título, mais sensível ele é às variações da Selic. “O preço de um título prefixado que pague juros de 10% ao ano, com vencimento em dez anos, cai cerca de 5% se a taxa subir para 10,5%”, calcula Araújo. Por causa dessa relação, alguns papéis prefixados vendidos no Tesouro Direto estão no negativo. É o caso da Letra do Tesouro Nacional (LTN) que vence em julho de 2010. O recuou é de 0,10% só nos últimos 30 dias até dia 11 (último dado disponível). Já as Notas do Tesouro Nacional série F (NTN-F) de janeiro de 2017 caem 8,52% em 12 meses.

Piora no cenário
Foi por isso que Cristiano Picollo Corrêa, de 30 anos, acabou vendendo com prejuízo as NTN-F compradas em maio. “Quando vi que o cenário dos juros estava ficando complicado, com perspectiva de alta muito clara, saí rapidamente”, conta. O investidor preferiu vender o papel, mesmo perdendo cerca de 5%, a ver o seu preço cair ainda mais e vai aguardar os juros se estabilizarem antes de comprar novos. Mas Corrêa está guardando algumas Notas do Tesouro Nacional série B (NTN-B), que oferecem juros prefixados mais a variação do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), com vencimento em 2045. “Não descarto a chance de ficar até o fim”, diz. “Mas se daqui a um tempo as taxas caírem e eu tiver boas oportunidades, por que não vender?”
Com essa perspectiva em mente, o investidor Alvaro chegou a conseguir, no ano passado, uma rentabilidade de 8% com títulos em apenas 35 dias – seu melhor negócio com papéis do governo até hoje. Tudo isso aproveitando a queda dos juros que, no mês de maio de 2007, proporcionou retorno de 60,79% em um ano para quem tivesse adquirido uma NTN-B com vencimento em 2045 e de 73,8% para os donos de uma NTN-B Principal para 2024, conforme mostram os balanços do Tesouro Direto.
Custos
Decidir por “especular” no Tesouro Direto – e conseguir lucrar – depende ainda de avaliar os custos, alerta o professor de Finanças Rafael Paschoarelli. “Quem compra títulos paga uma taxa de custódia de 0,4% ao ano para a CBLC (Companhia Brasileira de Liquidação e Custódia”, diz. Além disso, o investidor também desembolsa uma taxa de corretagem, que pode variar de zero a até 4% ao ano. Fora isso, é preciso considerar as alíquotas de Imposto de Renda, que diminuem conforme aumenta o prazo de aplicação. E para períodos muito curtos, de até 30 dias, incide o Imposto sobre Operações Financeiras. “Vencendo esses quatro gastos, vale especular”, diz.
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Publicado em: 26 de junho de 2008, 07h00
Alterado em: 26 de junho de 2008, 07h00







