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À sua maneira, investidores fizeram fortuna

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À sua maneira, investidores fizeram fortuna

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Segunda-feira, 30 de junho de 2008, 07h00

O apostador e o oráculo

Warren Buffett e George Soros têm estratégias opostas para as finanças, mas ambas resultaram em ganhos de bilhões de dólares

Luís Eduardo Leal - AE

Eles nasceram no mesmo ano (1930), no mesmo mês (agosto) e, por um bom tempo, ambos foram casados com mulheres de mesmo nome (Susan). Para além do detalhe de que ambos construíram fortunas multibilionárias, as coincidências praticamente se encerram por aí. Justamente por causa das diferenças nas estratégias dos dois gênios das finanças é que suas lições ficam mais fáceis de ser percebidas.

Com patrimônio líquido de US$ 62 bilhões, o norte-americano Warren Buffett, o homem mais rico do mundo, é conhecido pela dedicação a cada dólar acumulado desde que iniciou sua bem-sucedida carreira como investidor independente, em 1956. Até hoje, diz-se que pesquisa nos mercados de sua cidade natal, Omaha, as melhores ofertas de sua bebida preferida, Cherry Coke, mesmo sendo um dos maiores acionistas individuais da indústria que produz o refrigerante, a Coca-Cola Company. A retirada anual de Buffett da Berkshire Hathaway - holding que reúne suas participações acionárias em empresas tão diversas quanto Gillette e American Express - está limitada a US$ 100 mil por ano.

Diz-se que qualquer recurso adicional a esse minguado pró-labore deriva da venda de participações, o que o investidor detesta fazer.  “Regra número um para os investimentos: nunca perder dinheiro. Regra número dois: nunca esquecer a regra número um”, afirmou certa vez Buffett, praticamente ecoando palavras de seu principal mentor intelectual, Benjamin Graham, autor de livros seminais sobre avaliação de ações nos anos 30 e patriarca dos chamados investidores fundamentalistas – aqueles que tentam identificar o valor intrínseco dos ativos, por meio de rigorosa análise contábil e dos fundamentos do setor de atuação da empresa.

Capricho de jardineiro

Com enorme capacidade para avaliar o preço justo de um papel, infinita paciência para acumular participações crescentes em empresas sólidas, aversão a experimentalismos e ao pensamento dominante do mercado, Buffett construiu fortuna multibilionária, a qual continua a regar com o capricho de um jardineiro que transforma um jardim doméstico num bosque exuberante. “Quero continuar interferindo nos negócios cinco anos após a minha morte. Já distribuí para meus administradores de fundos o ‘jogo do copo’”, disse Buffett numa ocasião, com o humor pelo qual também ficou conhecido.

O húngaro naturalizado americano George Soros está muitos degraus abaixo no ranking dos mais ricos do mundo (97º lugar) – mas classificações do tipo pouco significam para quem está no topo de uma montanha de dinheiro de US$ 9 bilhões.

Ainda que alguns traços biográficos aproximem Soros e Buffett, as estratégias de investimento e as percepções de risco e valor os mantêm em cantos opostos. “Dificilmente poderíamos encontrar duas pessoas mais diferentes”, afirmou certa vez Soros, ao comentar o rumor irônico em Wall Street de que a face oculta do Monte Rushmore – encosta onde foram esculpidos os rostos dos pais da república americana – seria dedicada aos dois investidores, reputados em determinada época como os maiores gestores de recursos do mundo.

Depressão e nazismo

Separados por milhares de quilômetros, ambos experimentaram dificuldades na juventude. Buffett sentiu na pele os efeitos da Grande Depressão (a partir de 1929) nos negócios do pai, um corretor de ações, enquanto Soros, de família judia, espelhou-se nas lições do pai, um excêntrico entusiasta do esperanto, para sobreviver ao ano de ocupação nazista na Hungria, em 1944. “A sobrevivência no mercado financeiro às vezes implica bater rapidamente em retirada”, afirmaria Soros muitos anos mais tarde, já mundialmente famoso por suas apostas alavancadas, em especial no mercado de moedas.

Em 1992, Soros redefiniu a especulação global, ao lucrar US$ 1 bilhão em 24 horas numa queda-de-braço com o banco central do Reino Unido, que resultou na desvalorização da libra. Para atingir o resultado, no curto prazo, Soros assumiu posições em diferentes moedas européias, como o franco e o marco, avaliando que a libra estava sobrevalorizada no sistema de bandas cambiais que precedeu a adoção do euro.

Ele não foi o único a perceber a tendência, mas, ao ter convicção dela, procedeu como sempre recomendou a seus comandados: “acerte a jugular!” No momento em que a globalização financeira firmava os passos, ele ficou internacionalmente conhecido como “o homem que quebrou o Banco da Inglaterra”.

Como em outras passagens, Soros – que cultiva a imagem de filósofo frustrado, discípulo de Karl Popper que não conseguiu seguir a carreira acadêmica – aplicou sua tese da “reflexividade” e dos “ciclos de boom/colapso” para antecipar o curso dos acontecimentos. Nada mais distante das regras simples de Buffett para fazer dinheiro. O “sábio de Omaha” ainda hoje dedica horas à leitura de relatórios contábeis

Trunfos de cada um

Enquanto isso, Soros sempre preferiu estender o olhar às grandes variáveis econômicas e políticas mundiais. Atualmente, afastado do dia-a-dia dos negócios, mobiliza energia e recursos para promover mundialmente o ideal das “sociedades abertas”, criticar o governo Bush e defender reformas no sistema capitalista global.

Para Soros, seja no mercado de moedas, títulos ou ações, “o curso real dos eventos” é determinado pelas “percepções falhas” dos participantes, num processo condicionado tanto por dados concretos como por emoções. “Em algumas circunstâncias, os mercados financeiros podem afetar os assim chamados fundamentos, os quais supostamente os mercados deveriam refletir”, afirmou Soros certa vez.

“Quando isso acontece, os mercados entram em estado de desequilíbrio dinâmico e se comportam de forma muito diferente do que é considerado normal”, explicou ele, ao comentar suas teorias sobre a “reflexividade” e os “ciclos de boom/colapso”. É nesses momentos de desequilíbrio que Soros se sente confiante para bancar apostas alavancadas, quando tem a convicção de possuir a resposta correta.

Enquanto Soros recorria ao mercado de crédito quando necessário, buscando arbitragens e posições especulativas e de curto prazo, Buffett sempre foi um investidor fundamentalista, conservador e avesso a riscos, com horizonte de longo prazo. Ambos, contudo, seguem um padrão defendido por Buffett: são proficientes em suas áreas de excelência.

Soros, com suas grandes hipóteses sobre a evolução dos fundamentos macroeconômicos globais, sangue-frio e forte intuição para bancar apostas alavancadas, mesmo quando contrariam a percepção geral do mercado, e Buffett, com sua capacidade de ler.

Publicado em: 30 de junho de 2008, 07h00
Alterado em: 30 de junho de 2008, 07h00



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